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 ..::Tempestades de Outono::..

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Serenity

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MensagemAssunto: ..::Tempestades de Outono::..   Ter Ago 31, 2010 9:05 am

Capítulo I - Visita ao Psicólogo

Karina estava na flor de seus dezesseis anos. Uma bela menina de longos cabelos lisos e ruivos, os olhos pareciam duas esmeraldas de tão verdes, suas mãos tão delicadas e graciosas e lábios que nunca sorriam, assemelhando-se a uma boneca de porcelana de tão belas que eram suas feições e de tão clara que era sua tez. Havia algo que despertava o interesse dos demais, era como que, misteriosamente, todos se encantassem ao conhecê-la, porém era muito reservada e não permitia um contato maior dos colegas. Outra característica marcante era sua voz que, apesar de melodiosa, era como um murmúrio, uma melodia silenciosa que há muito não era ouvida.

Sempre quieta e retraída pelos cantos, não conversava com os colegas de classe e costumava fazer seus trabalhos sempre sozinha, mesmo os que a professora determinava que deviam ser feitos em grupo. Por esses motivos a menina acabou sendo chamada ao psicólogo do colégio.

Naquela manhã estava demasiado ansiosa. Jamais havia sido chamada, ou mesmo levada, a um psicólogo. Por mais que se esforçasse não conseguia conceber por qual motivo havia sido escolhida, afinal, possuía notas exemplares em todas as matérias, além de ser a melhor bolsista do colégio. Sua ficha escolar podia, realmente, ser considerada um exemplo de tão impecável, como os próprios professores já haviam lhe dito, mas, ainda assim, ela havia sido chamada ao psicólogo depois da aula.

"Eu vou acabar me atrasando..." " Como será um psicólogo? O que ele vai querer falar comigo?" "Eu nunca passei por isso antes...o que será que devo dizer?"

As perguntas vagavam simultaneamente em sua mente, deixando-a confusa. A ante-sala na qual se encontrava assemelhava-se à sala de espera de um consultório médico. Não havia mais ninguém ali, mas para ela essa era a melhor parte: a solidão. Não gostava de estar com outras pessoas, pois geralmente tentavam arranjar qualquer assunto para conversar e ela se sentia tão bem sozinha, parecia que assim a vida doía um pouco menos.

- Karina? - Seus pensamentos de súbito foram interrompidos pela entrada de uma mulher morena, cabelos pretos, olhos escuros, não muito alta, talvez, um metro e sessenta de altura. A mulher aparentava ter uns trinta anos e usava um óculos meia lua.

- S-S-Sim - Respondeu a jovem, invadida por um medo misterioso ao olhar para a mulher à sua frente.

- Entre, por favor, eu gostaria muito de conversar com você...

A psicóloga abriu um sorriso calmo e aconchegante, mas nem isso fez com que seu rosto esboçasse qualquer razão, era realmente incrível a capacidade que Karina possuía de conseguir parecer inexpressiva quando assim desejava. Seu rosto, naquele momento, parecia com o de uma estátua, tamanha era sua falta de emoção.

A sala era bem clara, as paredes pintadas de branco, havia uma grande mesa de madeira, uma cadeira grande e acolchoada, onde a mulher sentara-se, e duas cadeiras de ferro, do outro lado da mesa, possivelmente para os "entrevistados", ou quem sabe "interrogados", pudessem usar como assento. Ao canto, meio afastada, estava uma poltrona vinho, que também parecia bem confortável. Mas, como de costume, Karina preferiu ficar de pé, talvez assim a angústia e a vontade de ir embora tão logo lhe fosse possível, pudessem ficar claras.

- Sente-se, não precisa ter qualquer receio comigo, quero apenas conversar com você. A propósito, você sabe qual foi o motivo que fez com que fosse chamada aqui.

Confusa com tudo aquilo que estava acontecendo, ela apenas balança negativamente a cabeça, de forma tão sutil, que seus longos cabelos ruivos mal se movem.

- Bem, Karina, a verdade é que eu ouvi dizer que não costuma falar muito com seus colegas de classe e que até o momento não fez nenhum amigo. Gostaria que conversássemos a respeito.

Na verdade, tudo que Karina não gostaria era de falar a respeito, mas ao que tudo indicava, ela não teria outra alternativa, senão a de concordar em falar sobre o que ela desejasse, caso contrário não conseguiria sair rápido o suficiente dali.

Um longo período de silêncio se passa, até que a menina decide se pronunciar. Um longo suspiro seguido de um murmúrio:

- Por quê? - Ela faz mais uma pausa, hesitando para responder, ponderando sobre quais palavras poderia usar, mas o seu raciocínio parecia-lhe falhar naquele momento, então tentou deixar as palavras fluírem, quem sabe, poderia funcionar. - Por....que...eles ...eles não ...eles não gostam...de mim...por...que...eu...bem....eu sou diferente deles. - E falou o final de uma vez como se com isso pudesse se mostrar forte perante aquele suplício e continuou seu discurso. - E ...bem...eles riem de mim...por isso...bem...por isso eu não falo com eles....e eu...bem...eu não preciso deles....

A psicóloga faz uma pequena pausa, ajeita seus óculos meia lua, abre a gaveta e pega um bloco e uma caneta, começando a fazer, com eles, algumas anotações. Karina sentia-se insegura, pois não sabia se era bom ou ruim estar sendo anotado qualquer coisa a seu respeito. Começava a pensar que isso poderia custar sua bolsa e começava a se sentir mais ansiosa para fugir daquele lugar. Tão súbito quanto tinha começado a escrever, a psicóloga interrompeu suas anotações.

- Não entendo porque diz isso, mas quero que saiba que não irei rir de você. Ouvi que é uma boa menina, portanto, que tal se conversássemos mais vezes, afinal, me sinto tão sozinha. Seria tão bom ter companhia, se importaria de vir aqui as vezes?

Como de praxe, a estudante continuava sem esboçar qualquer reação às tentativas de aproximação da desconhecida. O rosto impassível, como de costume, era uma tentativa de se mostrar superior àquilo tudo. Além disso, aquela foi a pior maneira que poderia ser utilizada para fazê-la voltar até lá. Mas sabia que, sendo com essa desculpa esfarrapada ou não, ela não tinha escolha e a psicóloga a faria voltar. Infelizmente, sua bolsa de estudos no colégio talvez dependesse, a partir daquele momento, de fazer as vontades daquela senhora.

- Bem, eu não gosto de mentiras e a senhora, ou senhorita, com certeza não há de ficar muito tempo sozinha aqui, mas se realmente deseja, e exige, que eu venha, eu virei. Porém, apenas posso lhe dedicar meu tempo de recreio, uma vez que não posso demorar-me muito no colégio após o horário de saída. E como já está um pouco tarde, gostaria de saber se, por hora, estou dispensada?

- Na verdade, gostaria de falar-lhe um pouco mais sobre o motivo de sua convocação até aqui, mas me pareceu ter ouvido que não poderia se demorar, posso saber o motivo?

A jovem olhava para o seu relógio num misto de desespero e ansiedade. Era um velho relógio, a pulseira de couro já estava meio velha e desgastada pelo tempo, mas, para ela, o seu valor era inestimável, fazendo com que a aparência que ele possuía, depois de tantos anos, fosse algo irrelevante. O último presente de seu pai antes de partir. Ela havia escondido durante anos até poder, finalmente, voltar a usá-lo e agora lhe indicava que estava atrasada, mas não podia dizer o motivo de sua real preocupação, sendo assim, por mais que detestasse mentiras, seria obrigado a faze uso desse artifício agora. A causa era boa, portanto, não causaria grandes danos.

- Eu tenho um compromisso com minha tia, eu sempre lhe ajudo com a arrumação da casa quando chego do colégio e se eu me demoro ela começa a arrumação sem mim e, como a idade dela já é avançada, fico muito preocupada quando isso acontece. Além disso, ela fica extremamente preocupada quando me atraso. Tenho certeza que a senhora deve entender...- Pelo menos assim ela esperava...

- Sim, eu entendo, sendo assim, está dispensada. A propósito, meu nome é Margarida e pode chamar-me de "você", prefiro dispensar certas formalidades, afinal, realmente espero que sejamos amigas.

Ninguém poderia imaginar que, por trás daqueles movimentos calmos e daquele semblante inalterado, Karina estava aliviada e quase feliz por ter saído da presença de Margarida. Sem dizer uma única palavra, calmamente se retirou da sala, afinal, já estava atrasada, não podendo dar qualquer razão para que aquele diálogo se prolongasse mais.

Depois de, finalmente, sair do colégio, suas passadas tornaram-se mais largas e rápidas. Ela estava atrasada e, apenas uma vez, isso já havia acontecido e não havia gostado nada disso.

Enquanto caminhava, seus pensamentos acabaram voltando-se novamente para a psicóloga que acabara de conhecer. "Quem ela achava que era?" Ela não sabia nada acerca de sua vida cotidiana e nem dos seus problemas. Era, comprovadamente, uma das melhores bolsistas do colégio e ela sabia disso, afinal, suas notas estavam entre as maiores e sua ficha era impecável. Não entendia o motivo pelo qual havia sido chamada àquele consultório. "Por que resolveram sondá-la?" "Ela não havia transgredido nenhuma norma do colégio, por que criticá-la, taxá-la?" "Já não era o bastante tudo aquilo que ela tinha que passar todos os dias?" No fundo, ela sempre se sentiu criticada em seu íntimo, como se, mesmo sem saber da sua vida, já lhe criticassem por ela.

De súbito ela parou, seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho gerado pelo alvoroço das crianças brincando. Ela havia parado em frente à uma escola primária. As crianças estavam saindo, correndo alegres e saltitantes, a vida delas parecia tão fácil, eram tão ingênuas, tão puras. Coisas que lhe foram roubadas desde muito cedo, sentia saudade desse tempo, mas foi algo que durou tão pouco...uma lágrima saliente ameaça cair, mas consegue contê-la a tempo, não deveria chorar ali, não naquele lugar...

Ah! Ali estava ela, a razão do seu esforço, o motivo de sua existência, seu maior tesouro, o seu lindo bibelô. Os cabelos negros e cacheados, os olhos verdes como os seus, a tez clara - um verdadeiro anjinho sobre a face da Terra. Karina passava horas infindáveis a admirá-la, como era linda! Ninguém era capaz de dizer que tão amável criatura fosse fruto de um ato tão brutal, um ato que lhe roubou a infância e os sonhos tão cedo. A vida podia ser difícil, mas ela fazia valer a pena.

A criança, que brincava com seus colegas bem descontraída e animada, de repente percebe que está sendo observada, o que faz com que ela abra um imenso sorriso e corra em direção à Karina.

- Mamãe!!! Você chegou atasada, "tá" tudo bem?

- Sim meu anjinho, desculpa o atraso da mamãe?

A doce menina ri docemente, deixando Karina feliz.

- Sim, mas só se dé beijo!

Karina abre um singelo sorriso e dá um beijo gostoso na bochecha da filha.

- Tudo fica bem quando a mamãe vê você, meu anjinho. Mas temos que ir para casa, temos muito o que fazer hoje.

- Tudo bem!

- Seu aniversário está chegando, lembra-se?

- Sim! E eu quéio muito bigadeio ta?

- Claro meu querido anjinho! Claro...

As duas caminham de mão dadas para casa. No caminho a pequena Angélica conta para sua mãe sobre como havia sido seu dia, sua conversa com seus amigos, os trabalhinhos na escolinha, que podiam ser coisas bobas, mas Karina adorava ouvir atenciosamente. Ela sabia que havia muito a ser feito naquela tarde, afinal, sua tia estava viajando e ela realmente teria que cuidar da casa enquanto isso, mas ela nem se importava, agora a psicóloga parecia sumir no horizonte das preocupações e até os contos de fadas pareciam reais...
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